Michiko – parte 05 [conto]

A mulher decidiu não contar para ninguém sobre sua conversa com o monge, nem sobre o ouro que carregava consigo. Apesar de ser questionada por seus familiares constantemente, ela tentava desconversar e aproveitava para contar qualquer coisa maravilhosa sobre a terra distante. Michiko passou seis dias maravilhosos ao lado das pessoas que mais amava no mundo e aos poucos foi esquecendo sua vida no Brasil. Foi apagando filhos, marido, tristeza e alegrias de sua memória, restando apenas o mais essencial em sua alma: o desejo de fazer com que sua família fosse feliz. Sua decisão já estava tomada. Contou sobre o ouro que tinha consigo e pediu para que não viajassem ao Brasil. Chorando muito, Michiko se despediu de sua família e dirigiu-se ao templo.

– Sabe bem o que está fazendo?

– Sei. Nada será como antes mesmo que eu queira, então é melhor que fiquemos todos aqui no Japão.

– Sua vida inteira mudará. Não tem medo do que pode lhe acontecer?

– Não sinto mais medo de nada. Só quero a felicidade para a minha família.

– Como pode afirmar com tanta certeza de que ficar no Japão será a garantia da felicidade de todos vocês?

– Todos sofremos muito naquele lugar, isso ficou muito claro para mim. Se eu posso mudar o curso do destino, prefiro que fiquemos aqui.

– Acontecerão coisas que você não poderá controlar. A única chance que você tem de mudar as coisas é agora.

– Tem certeza de que é minha única chance?

– Não, mas você deve se portar como se fosse. Michiko, as pessoas não são marionetes que você pode controlar como quiser.

– Se eu saltei o tempo uma vez, certamente conseguirei de novo.

– Mesmo que você mude o curso das coisas, ainda sim existe algo destinado para cada um de nós e não há como escapar disso. A partir do momento em que você ultrapassar os portões deste templo, irá saltar novamente para o seu tempo. Não sou capaz de precisar onde você estará, mas nunca se esqueça de que será um caminho sem volta.

Convicta de sua decisão, Michiko caminhou lentamente em direção ao portão. Seu coração estava embriagado pela saudade de sua família, e suas lembranças, confusas. Ao olhar para fora, começou a notar que a paisagem ia mudando aos poucos e teve um leve receio de continuar sua caminhada. Quando ameaçou diminuir a velocidade de seus passos, foi sugada para fora do templo com tal força que desmaiou.

Ao acordar, notou que estava rodeada de lindas mulheres, todas maquiadas e com os cabelos arrumados. Levantou-se apressadamente, correu até um espelho e percebeu que seu rosto estava pintado como o de uma gueixa. Lembrou-se de que, ainda muito pequena, fora vendida por seus pais em troca de uma bolsa cheia de ouro.

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